PSICANALISTA CLÍNICO
Especialização em Psico-Oncologia
Clínica e Hospitalar
Por trás do sofrimento, existe uma história que precisa ser compreendida.
Como psicanalista clínico, compreendo que aquilo que uma pessoa sente hoje não está separado da história que viveu. Experiências, relações e formas aprendidas de lidar com as emoções podem continuar produzindo efeitos na maneira como pensamos, fazemos escolhas e nos relacionamos.
Meu trabalho começa pela compreensão dessas conexões, mas não termina nela. A partir do que é elaborado ao longo da análise, trabalhamos para desenvolver recursos e novas formas de lidar com aquilo que hoje provoca sofrimento, limita escolhas ou continua se repetindo.
Minha forma de compreender o sofrimento não nasceu apenas dos livros.
Antes de estudar o sofrimento humano, eu precisei reconhecer seus efeitos na minha própria história. Durante muito tempo, algumas experiências deixaram marcas que eu não sabia nomear, compreender ou sequer relacionar à maneira como eu sentia, reagia e conduzia determinadas situações da minha vida.
Foi através do meu próprio processo de análise que comecei a perceber que compreender o que vivemos não significa apenas olhar para o passado. Significa reconhecer como determinadas experiências podem continuar presentes na forma como sentimos, nos relacionamos, fazemos escolhas e reagimos ao que acontece hoje.
Mais tarde, o estudo e a formação clínica deram profundidade e fundamento àquilo que a experiência havia me apresentado. Foi dessa aproximação entre experiência, análise e formação que também nasceu a maneira como hoje escuto o sofrimento do outro. Quando alguém chega até mim falando sobre aquilo que sente ou sobre algo que não consegue mudar, não vejo apenas um sintoma ou um comportamento a ser corrigido. Existe uma história que precisa ser compreendida para que possamos entender por que aquilo continua produzindo efeitos em sua vida.
Compreender o que se repete é importante.
Construir uma forma diferente de agir também.
Ao longo da análise, podemos identificar experiências, conflitos e formas de pensar, sentir e agir que foram se construindo ao longo da história e que continuam produzindo efeitos no presente. Muitas vezes, é nesse processo que a pessoa começa a compreender por que determinadas situações despertam reações tão intensas ou por que alguns comportamentos e escolhas continuam se repetindo.
Mas compreender de onde algo vem não significa, por si só, conseguir fazer diferente. É a partir dessa compreensão que podemos trabalhar outras possibilidades de resposta diante daquilo que antes parecia acontecer de forma quase automática.
Isso pode significar aprender a reconhecer uma emoção antes de agir impulsivamente, estabelecer limites em uma relação, sustentar uma decisão sem depender constantemente da aprovação de outras pessoas ou perceber que existem outras maneiras de lidar com situações que antes produziam sempre as mesmas respostas.
O objetivo não é apagar a história que produziu determinadas marcas, mas ampliar seus recursos para que aquilo que foi vivido não determine, da mesma maneira, as escolhas que você faz hoje.
A Psico-Oncologia ampliou minha compreensão sobre aquilo que o sofrimento pode provocar em uma vida.
Minha especialização em Psico-Oncologia Clínica e Hospitalar aprofundou minha compreensão sobre os impactos emocionais que podem surgir quando uma doença grave atravessa a vida de uma pessoa. Um diagnóstico pode trazer medo, angústia e incerteza, mas também colocar diante dela questões que antes pareciam distantes: a possibilidade da morte, o medo das perdas, a incerteza sobre a resposta ao tratamento e sobre como será a vida durante e depois desse processo.
Ao longo dessa experiência, não é apenas o corpo que atravessa mudanças. A rotina pode ser interrompida, planos podem precisar ser adiados ou abandonados, e a própria percepção de futuro pode mudar. Há também um luto pela vida que existia antes da doença e pelas partes dessa vida que talvez não possam ser retomadas da mesma maneira.
Nem sempre o fim do tratamento significa o retorno à vida de antes.
Mesmo quando o tratamento alcança bons resultados, algumas experiências não terminam junto com ele. Podem permanecer o medo de uma recidiva, a insegurança diante de novos exames ou sintomas e a dificuldade de confiar novamente no próprio corpo. Para algumas pessoas, existe ainda o desafio de conviver com sequelas, alterações corporais, limitações ou dispositivos que passam a fazer parte do cotidiano.
Essas mudanças podem exigir mais do que uma adaptação prática. Elas podem modificar a relação da pessoa com o próprio corpo, com sua autonomia, seus relacionamentos e com aquilo que imaginava para o futuro. A cura ou o controle da doença podem encerrar uma etapa do tratamento sem necessariamente encerrar seus efeitos emocionais.
Quando a doença atravessa uma vida, seus impactos também alcançam quem está ao redor.
O sofrimento provocado por uma doença grave não pertence somente a quem adoece. Familiares e cuidadores também podem viver medo, exaustão, impotência e mudanças profundas na rotina, enquanto procuram sustentar quem está em tratamento e, ao mesmo tempo, lidar com as próprias emoções. Em situações mais delicadas, surgem ainda questões relacionadas à possibilidade da perda, ao luto antecipatório e à necessidade de lidar com despedidas e com aquilo que já começa a mudar dentro da própria família.
Minha atuação voluntária no setor de acolhimento, em contexto hospitalar no Hospital Boldrini, me aproxima de pacientes e familiares em diferentes momentos dessa realidade. Nesse espaço, atuo por meio do acolhimento, da escuta e do suporte, acompanhando de perto como uma mesma doença pode produzir experiências emocionais profundamente diferentes em cada pessoa e em cada família.
Compreender a doença não é o mesmo que compreender quem a atravessa.
A Psico-Oncologia me ensinou, sobretudo, que compreender o sofrimento exige olhar para além daquilo que acontece com o corpo. É preciso compreender também o que aquela experiência representa para aquela pessoa: o que ela teme perder, aquilo de que precisa se despedir, o que ainda espera preservar e como poderá construir sua vida diante de uma realidade que talvez tenha mudado.
© 2026 Júnior Souza Psicanalista Clínico.